Episódio 38 do Podcast N2Vinho: Vinhos sem álcool em prova, sem preconceitos
Mais do que responder à pergunta “isto é mesmo vinho?”, o episódio mostrou que estamos perante uma categoria em clara transformação e que merece ser provada antes de ser julgada.
Contexto: do “janeiro seco” à mesa do dia a dia
A conversa começa com o enquadramento do fenómeno do janeiro seco e com o paralelismo inevitável com a evolução das cervejas sem álcool. Tal como aconteceu nesse segmento, também nos vinhos a qualidade tem vindo a subir de forma consistente, acompanhando mudanças reais nos hábitos de consumo.
É neste contexto que surge o convidado do episódio: Jeremias, sommelier alemão radicado em Lisboa, profundamente envolvido na curadoria, serviço e divulgação de vinhos desalcolizados, tanto em restauração como em loja especializada.
O que são, afinal, vinhos sem álcool?
Um dos pontos centrais do episódio é a defesa do termo vinho desalcolizado. A ideia é simples, mas essencial: parte-se sempre de um vinho verdadeiro, fermentado e completo, ao qual o álcool é retirado posteriormente através de tecnologia. Não estamos a falar de sumo de uva “chique”.
Jeremias explica o método mais comum atualmente:
• Desalcolização em vácuo, em tanques de inox
• Utilização de pressão negativa e ligeiro aquecimento
• O etanol evapora a cerca de 27 °C, muito abaixo do ponto normal de ebulição
Fala-se também da inevitável perda parcial de aromas e das técnicas de recuperação aromática, reforçando uma ideia-chave: um bom vinho sem álcool só é possível se o vinho de base for bom.
Há ainda espaço para questões legais, como os limites de 0,5% ou 1%, a distinção entre “sem álcool”, “0.0” e “desalcolizado”, bem como as diferenças entre países e mercados.
Técnica, escala e mercado
O episódio deixa claro que este é atualmente um dos segmentos de bebidas que mais cresce a nível global. No entanto, a entrada neste mercado não é simples para todos os produtores.
A desalcolização continua a ser um processo industrial e centralizado, realizado em poucos centros, sobretudo em Espanha e na Alemanha. Existem mínimos elevados de volume, cerca de 25.000 litros por lote, o que dificulta o acesso de pequenos produtores.
Ao mesmo tempo, começam a surgir novas tecnologias, como versões mais recentes de osmose inversa, que poderão tornar o processo mais acessível no futuro.
Outro ponto relevante é o preconceito do consumidor. Muitos rejeitam vinhos sem álcool à partida, mas em provas cegas acabam, por vezes, surpreendidos e até convencidos.
Os vinhos em prova
Cognato Chenin Blanc sem álcool, África do Sul
Chenin Blanc de perfil fresco, com notas de maçã, apontamentos vegetais e acidez bem marcada. Um vinho leve, preciso e muito gastronómico.
Manuel Moreira sublinha algo importante: apesar do discurso comum sobre perda aromática, este vinho mantém claramente a identidade da casta.
Surge também a questão da validade no rótulo. Por ser legalmente classificado como “alimento”, o vinho tem data de consumo preferencial, mesmo podendo ganhar complexidade com o tempo.
Tinto: Tempranillo e Syrah biodinâmico, Espanha
Produzido pela Bodega Mas Que Vinos. Talvez o vinho mais surpreendente do episódio. O vinho de base é biodinâmico, fermentado em ânfora e com 12 meses de barrica. A versão com álcool teve 95 pontos Parker.
No copo sem álcool, todos destacam o nariz muito expressivo, cheio de fruta e especiaria, taninos presentes mas acessíveis e excelente persistência. Daniel e Manuel admitem que é o vinho que mais se aproxima da experiência de um tinto “clássico”.
Espumante rosé: Provence, França
Espumante rosé biológico elaborado com as uvas Syrah e Grenache, com cor mais intensa do que o típico estilo Provence, resultado da concentração após a retirada do álcool.
O gás carbónico é adicionado posteriormente, com uma bolha relativamente fina e elegante. João destaca-o como um vinho que convida a abrir várias garrafas em contexto descontraído, como verão ou piscina. Daniel aprecia especialmente a expressão da fruta, mesmo não sendo o seu perfil habitual de consumo.
Vinho surpresa: Silvaner, Alemanha
Um dos momentos altos do episódio. Um Silvaner de topo de gama, Grosses Gewächs, proveniente da região clássica da casta.
Jeremias refere que foi um dos vinhos de maior qualidade alguma vez desalcolizados e que hoje restam poucas garrafas disponíveis. Manuel é claro ao afirmar que muitos Silvaner “normais”, com álcool, nem chegam a este nível.
Quem bebe vinhos sem álcool?
Segundo a experiência de Jeremias, o cliente típico tem entre 30 e 55 anos, com um ticket médio elevado, próximo dos 100 €. Muitos dos consumidores não são portugueses, sendo frequentes americanos e russos a viver em Lisboa.
Não se trata de abstémios. São consumidores que alternam períodos de consumo com álcool e sem álcool, consoante o contexto.
A restauração acompanha esta tendência. Vários restaurantes de fine dining e com estrelas Michelin em Portugal já incluem vinhos sem álcool em carta ou em menus de harmonização. Jeremias trabalha, entre outros espaços, com The Other Bottle e restaurantes no Príncipe Real.
O nascimento da Virgu Drinks
Durante o episódio, os anfitriões explicam também o lançamento da Virgu Drinks. Como a VirguWines é dedicada exclusivamente a vinhos portugueses, surgiu a necessidade de criar um projeto paralelo focado em bebidas sem álcool, incluindo vinhos desalcolizados internacionais.
No site da Virgu Drinks está disponível um pack com os três vinhos principais provados no episódio, com opção de compra única ou subscrição mensal.
Portugal e o futuro dos vinhos sem álcool
Atualmente, a oferta portuguesa de vinhos sem álcool de qualidade é ainda muito limitada. Jeremias não esconde o cepticismo, mas deixa uma nota de esperança: existem projetos em curso e é expectável que, num futuro próximo, surjam propostas nacionais mais consistentes.
Para uma adega entrar neste segmento é necessário volume, um bom vinho de base, capacidade logística para a desalcolização e um plano de marketing sólido, num mercado cada vez mais competitivo.
A conclusão é consensual. Os vinhos sem álcool não vêm substituir o vinho clássico. São uma opção adicional à mesa, com potencial para criar nova procura, preservar vinhas, paisagem e empregos.
🎙️ O episódio 38 do N2Vinho é um convite claro: provar antes de decidir. Porque, como ficou evidente neste direto, o futuro do vinho também pode passar, em certos momentos, por não ter álcool no copo.
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